A imagem de dezenas de bandidos fugindo para a mata durante a ocupação do Complexo do Alemão, em novembro de 2010, contrasta com a visão da torre blindada instalada na manhã desta terça-feira no alto da comunidade Nova Brasília. A polícia que, no passado, botou traficantes para correr, agora, acuada, constrói um refúgio para se proteger de ataques. Foram cinco dias de tiroteio até que a torre fosse erguida. A vítima mais recente da guerra no Alemão é o adolescente Paulo Henrique Oliveira de Morais, de 13 anos. Baleado na barriga na noite de segunda-feira, ele morreu às 6h30 desta terça, elevando para quatro o número de vítimas fatais do conflito.
— A instalação da torre é um símbolo do impasse do programa de pacificação. É a falência total do projeto original, que tinha como objetivo produzir segurança e paz — afirma a cientista social Sílvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Cândido Mendes.
Que avaliação faz dos recentes conflitos no Alemão?
SILVIA RAMOS – Os problemas relacionados à instalação dessa torre não começaram neste fim de semana. Com o trabalho que fazemos junto aos moradores do Complexo do Alemão, temos percebido uma grande tensão nos últimos meses por causa dessa história de os policiais ocuparem casas de moradores. O conflito não se dá apenas entre policiais e traficantes, mas também entre policiais e moradores. É uma visão simplória da polícia achar que moradores que reclamam da polícia são aliados do tráfico.
Os policiais se sentem sitiados no Alemão?
SILVIA RAMOS – É claro que ali existe uma ação agressiva e provocativa do tráfico, mas não adianta querer reduzir a questão a um problema de proteção dos policiais. Há alguns anos não se vê um gesto de aproximação com os moradores. A polícia precisa entender que não vai ganhar a comunidade pela força, mas pela legitimidade. Discordo dos que acham que a polícia tem que sair do Alemão. Sair de lá e de outras áreas conflagradas, onde há moradores e policiais sem risco, seria desistir e entregar a favela para os bandidos. É uma novela cujo roteiro já está escrito: só vai gerar mais tragédia. Não vai gerar confiança nem segurança.
Qual foi o calcanhar de aquiles da UPP no Alemão?
SILVIA RAMOS – O primeiro foi a entrada das Forças Armadas, no primeiro ano e meio. Enquanto isso aconteceu, a polícia não se preparou para assumir a posição. O segundo erro foi tentar utilizar o mesmo modelo que estava dando certo para comunidades de pequeno e médio porte da Zona Sul. O terceiro foi a falta de esforço para fazer um diálogo eficiente com os moradores. A polícia se sentiu entrando numterritório de guerra desde o início e nunca entendeu que 90% dos moradores queriam que aquilo desse certo.
Qual é a solução?
SILVIA RAMOS – O Alemão é uma dessas áreas onde o projeto de UPP não deu certo desde o primeiro dia. Onde deu certo, houve a retirada de armas das mãos de criminosos. No Alemão, todos os moradores sabiam quais eram os territórios controlados pelo tráfico, nos quais a polícia não entrava. É preciso haver uma reentrada da polícia, com um projeto novo, novos comandantes e policiais. É começar do zero.