O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) da Universidade Cândido Mendes, do Rio, apresenta, no dia 2 de maio, as conclusões da pesquisa Mídia e Violência – Como os Jornais Retratam a Violência e a Segurança Pública no Brasil.Já havia me referido a resultados parciais do estudo na coluna “Nas mãos da polícia” (27/2).Os novos dados trarão luzes para uma discussão antiga. É verdade que os crimes que ocorrem no Rio repercutem mais do que os praticados em São Paulo? É verdade que os jornais paulistas cobrem mais os crimes do Rio do que os de São Paulo?
A pesquisa analisou 2.514 textos sobre criminalidade e violência publicados durante cinco meses de 2004 em nove diários de São Paulo (Folha, “Estado” e “Agora”), Rio (“O Globo”, “O Dia” e “JB”) e Minas (“Estado de Minas”, “Diário da Tarde” e “Hoje em Dia”).
Selecionei quatro conclusões:
1 – Os jornais do Rio estão mais interessados na cobertura de crimes e violência do que os de São Paulo e de Minas: 45,3% dos textos analisados foram publicados nos três jornais do Rio, contra 31,1% nos de São Paulo e 23,5% nos de Minas.
2 – Os nove jornais juntos cobrem muito mais os casos que ocorrem no Rio do que os em São Paulo ou em Minas: 48,2% dos textos publicados referiam-se a casos ocorridos no Estado do Rio, contra 21,3% ocorridos em São Paulo, 6,4% em Minas, 17,5% em outros Estados e 6,6% não identificados.
3 – Os jornais do Rio cobrem mais os crimes que ocorrem no seu Estado do que os de São Paulo e Minas cobrem nos seus respectivos Estados: “O Globo” publicou 78% de suas reportagens sobre o Rio, e apenas 5,6% sobre São Paulo; a Folha publicou 46,8% sobre São Paulo e 28,8% sobre o Rio; e o “Estado de S.Paulo” publicou 44,7% sobre São Paulo e 28,5% sobre o Rio.
4 – Corolário do item anterior, Folha e “Estado” dão mais espaço para os crimes ocorridos fora de São Paulo (53,2% e 55,3%, respectivamente, dos textos publicados no período) do que “O Globo” o faz para os de fora do Rio (22%).
Os dados estarão sendo discutidos no Rio no próximo dia 2. Quem se interessa pelo tema deve enviar mensagem para drodrigues@candidomendes.edu.br.
DEPOIMENTO
Mudança “positiva”
Sílvia Ramos é cientista social e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania . “Alguns analistas argumentam que uma regra sensacionalista da mídia corresponde ao ‘if it bleeds, it leads’ (se sangra, vira manchete). Mas, ao menos no caso brasileiro, os jornais não podem ser acusados de exagerar a violência. Exagerados são os índices de criminalidade no país. Entre 1980 e 2002, 695 mil brasileiros foram assassinados.
O fato é que durante muitos anos predominou entre os principais jornais do país uma espécie de cortina de silêncio sobre mortes violentas que recaem, há mais de duas décadas, concentradamente sobre jovens, pobres, na maioria negros e moradores de favelas e periferias.
É claro que o grande número de notícias sobre violência e segurança nos jornais não resulta automaticamente numa cobertura de boa qualidade nem evita que o sensacionalismo seja um recurso utilizado com freqüência. Mas é uma mudança positiva os grandes jornais terem incorporado os temas da segurança pública nas suas pautas.”