Entrevistados relataram ter pouquíssimo contato com PMs no dia a dia, exceto em situações de abordagem ou de revista
RIO – Criada com o objetivo de quebrar as barreiras de convivência entre o policial e o morador da favela, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), principal projeto de segurança pública do estado, não vem cumprindo esse papel. De acordo com a pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, feita em 2016, com 2.479 pessoas que vivem em 37 das 38 regiões com UPPs (a Baixada Fluminense ficou de fora), moradores relataram ter pouquíssimo contato com policiais no dia a dia, exceto em situações de abordagem ou de revista. Muitos moradores afirmaram que, nos últimos 12 meses, nem eles nem ninguém da família tiveram contato direto com policiais de UPP, em situações – por exemplo – de pedir informação (96%) ou ajuda para parto e casos doença (95,8%).
Além disso, 98,2% dos entrevistados afirmaram que não participaram de projetos desenvolvidos por policiais, nem estiveram presentes em reuniões com moradores e policiais (97,9%).
A julgar pelos números, cenas comoventes, como a dos policiais da UPP do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, no Natal de 2012, não eram a regra. Na ocasião, eles organizaram uma grande festa, com direito a Papai Noel, pula-pula, brincadeiras e distribuição de presentes para as crianças.
— A ideia era de uma polícia de proximidade, de contato com os moradores. Nas primeiras UPPs e nas menores, como o Santa Marta, por exemplo, existiu um cuidado no treinamento do policial. Ao longo do tempo, isso foi se perdendo. Com as últimas UPPs, da Zona Oeste, esta preocupação foi abandonada e só ficou o conceito de ocupação militar — critica a cientista política Silvia Ramos, uma das coordenadoras do estudo.
A pesquisa ressalta que é possível que os números reflitam, em alguma medida, o medo de revelar ligações com os PMs da UPP. “Mas os percentuais de respostas negativas são tão próximos da unanimidade e espelham tão tem a falta de interação expressa pelos policiais em pesquisas anteriores, que o resultado não parece ser fruto simplesmente de medo, constrangimento ou desconfiança”.
Responsável pelo projeto social Grupo Solidário Conquistando Emprego, que tem escritório na Cidade de Deus, na Zona Oeste, para ajudar na busca de trabalho aos moradores desempregados, Alexandre Siani, explicou que até as reuniões comunitárias organizadas pela UPP têm ficado vazias. No entanto, ele conta que não desiste de fazer algo pela comunidade e, por isso, sempre vai aos encontros. Ultimamente, ele tem se empenhado em recolher assinaturas de moradores para transformar em projeto de lei a proibição de operações policiais entre 6h e 9h, horário em que as pessoas saem de casa para ir ao trabalho ou para a escola.
— Os moradores chegam a perder o emprego porque não conseguem sair de casa para trabalhar. Nenhum empregador quer um funcionário que falte com frequência — explicou Siani.
Segundo a pesquisa, 38% dos entrevistados disseram ter tomado conhecido, direta ou indiretamente, nos últimos 12 meses, de uma ou mais situações em que policiais da UPP xingaram ou humilharam moradores da comunidade. Situação que, para os pesquisadores, aponta para uma falta de controle de abusos e de desvios de policiais mais graves, mas também da presença de padrões de comportamento desfavoráveis a uma convivência pacífica e respeitosa, contrastando com a ideia de polícia de proximidade.
O fotógrafo Omar Britto, de 31 anos, que vive no Morro da Babilônia, no Leme, na Zona Sul, lembra quando um veículo da UPP passou por cima das sacolas de compras de uma moradora.
— Foi uma falta de respeito com a moradora. O pior é que eles acharam que estavam certos. Não pediram desculpas. A ideia inicial da UPP foi excelente. Mas, depois, com as trocas de efetivos, o padrão caiu. Além disso, a parte social não veio. Estamos com um prédio da Faetec fechado. Alguns professores voluntários querem aproveitar as salas para dar aulas de pré-vestibular para a população, mas o estado não liberou o local — denunciou Britto.