Tiroteios no estado deixaram 742 mortos e 620 feridos durante os seis meses da intervenção

Bruna, mãe de Marcos Vinicius da Silva, exibe camisa que adolescente usava quando foi baleado no Complexo da Maré. Ele morreu no hospital - Antonio Scorza 21-06-2018 / Agência O Globo

Para coordenadora do Observatório da Intervenção, Sílvia Ramos, a política de confronto agravou a violência no Rio

RIO — Os 4.895 tiroteios ocorridos no estado desde a decretação em 16 de fevereiro passado da intervenção federal na segurança do Rio, deixaram um rastro de 742 mortos e 620 feridos. Os dados são do Observatório da Intervenção, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes. Ao fazer o balanço dos seis meses em que a segurança do Rio passou a ser comandanda pelo general Walter Braga Netto, a socióloga Sílvia Ramos, coordenadora do Observatório afirmou que a polítíca de confronto vem aumentando a perda de vidas humanas e agravando ainda mais o problema da violência. Sílvia citou a declaração do secretário de Defesa americano, Jim Mattis, que foi despertado por um tiroteio no Morro Chapéu Mangueira, quando estava hospedado em um hotel no Leme nesta semana:

— Ele comentou que “cada vez que escutamos tiros, a vida de alguém pode estar mudando para sempre”. Essa deveria ser também a preocupação das autoridadas de segurança e dos interventores” — afirmou Sílvia Ramos.

Segundo a estudiosa, o Rio precisa de uma política voltada para salvar vidas. Segundo o balanço da entidade, de 66 metas do plano estratégico anunciado por Braga Netto foram cumpridas:

— Olhando os números, vemos um quadro desalentador. Houve aumento de 40% dos tiroteios, redução de 30% das apreensões de fuzis. Muita gente tinha esperança, porque as Forças Armadas não estão envolvidas em corrupção, poderiam ter utilizado seu prestígio e sua presença para alterar a política de segurança e para dizer: vamos fazer uma política de segurança voltada para uma meta principal que é diminuir tiroteios, diminuir os confrontos de quadrilhas e principalmente diminuir as mortes provocadas pela intervenção da própria polícia.

O Globo, 16/08/2018

Para Sílvia Ramos, após seis meses, a intervenção está testando um modelo de segurança pública baseado em uma concepção militar, que pensa desafios de violência e criminalidade como problemas de guerra, a ser enfrentados por generais e batalhas. Para a pesquisadora, o modelo fomenta ainda mais a violência.

— Quando a polícia produz letalidade em suas ações, isso transmite uma mensagem, para a tropa para a sociedade e para os moradroes, de que excessos serão tolerados. Vamos fechar o ano de 2018 com um recorde de mais de 30 anos, nunca a polícia produziu tantas mortes.

Após o início da intervenção federal, de março a julho, foram registrados no estado 636 homicídios por intervenção policial, um aumento de 38% dos casos, em comparação com o mesmo período de 2017. O secretário de Segurança, general Richard Nunes, no entanto, negou que o aumento tenha sido causado por uma política de segurança pautada em confronto. Em entrevista, pela manhã, à Rádio CBN, Richard Nunes responsabilizou o comportamento dos criminosos.

Segundo Richard Nunes, a intervenção vem trabalhando com integração e produzindo informações para o combate eficaz da violência, atuando para derrubar os índices criminais:

— O nosso objetivo é baixar os indices de criminalidade como temos feito há quatro meses consecutivos. Baixamos todos os índices de criminalidade no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio e até mesmo de latrocínio, que chegamos a um número em julho que não se repetia desde novembro de 2005 — afirmou Richard Nunes.

Ao analisar os primeiros seis meses da intervenção, o secretário lembrou que entre as metas que estão sendo realizadas está a reestruturação das polícias:

— Encontramos as polícias desestruturadas com salários atrasados, delegacias depauperadas e temos trabalhado para mudar isto. Recuperamos a capacidade de botar policial na rua com regime adicional de serviço, começamos a reavaliação médica para termos mais efetivo, estamos rearticulando as unidades de polícia pacificadora, nós conseguimos desentravar concursos que estavam aí desde 2014, que não se chamava nenhum policial, e nós conseguimos colocá-los de volta, chamá-los tanto na polícia civil quanto na militar.

Richard Nunes lembrou ainda que a polícia tem trabalhado junto às corregedorias e de forma integrada com o Ministério Público para a prisão de criminosos que têm um grau de sofisticação maior e criticou seus críticos.

_ Ou seja tanta coisa sendo feita que não está sendo observada que me causa surpresa. Eu acho que existe uma certa fixação de determinados observatórios especialistas que parecem que estão com a luneta travada, só conseguem enxergar determinados gráficos, mas tem muita coisa sendo feita e as pessoas de bem têm percebido isto.

Sobre os recursos de R$ 1.2 bilhão prometidos para a segurança, Richard Nunes lembrou que em razão da situação fiscal do estado, houve demora para a sua liberação:

O secretário também falou sobre o novo grupo de trabalho criado para implantar o novo sistema de inteligência do estado:

_ A nossa ideia é que a subsecretaria de inteligência seja o órgão central dos sistema de inteligência do estado, sendo capaz de integrar dados e isto demanda recursos tecnológicos mais avançados que nós também estamos adquirindo e temos que aperfeiçoar esta doutrina de intercambiamentos de dados das diversas organizações e também a capacidade de termos sensores e processadores adequados para o vasto volume de informações que são produzidas pela segurança pública num estado como o Rio de Janeiro. É isto que muda, melhorar a qualidade ainda mais e também a nossa expectativa é deixar até o final do ano um sistema de inteligência em condições muito mais eficaz de trabalho do que este que encontramos _ concluiu o general.

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