Para coordenadora do Observatório da Intervenção, Sílvia Ramos, a política de confronto agravou a violência no Rio
RIO — Os 4.895 tiroteios ocorridos no estado desde a decretação em 16 de fevereiro passado da intervenção federal na segurança do Rio, deixaram um rastro de 742 mortos e 620 feridos. Os dados são do Observatório da Intervenção, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes. Ao fazer o balanço dos seis meses em que a segurança do Rio passou a ser comandanda pelo general Walter Braga Netto, a socióloga Sílvia Ramos, coordenadora do Observatório afirmou que a polítíca de confronto vem aumentando a perda de vidas humanas e agravando ainda mais o problema da violência. Sílvia citou a declaração do secretário de Defesa americano, Jim Mattis, que foi despertado por um tiroteio no Morro Chapéu Mangueira, quando estava hospedado em um hotel no Leme nesta semana:
— Ele comentou que “cada vez que escutamos tiros, a vida de alguém pode estar mudando para sempre”. Essa deveria ser também a preocupação das autoridadas de segurança e dos interventores” — afirmou Sílvia Ramos.
Segundo a estudiosa, o Rio precisa de uma política voltada para salvar vidas. Segundo o balanço da entidade, de 66 metas do plano estratégico anunciado por Braga Netto foram cumpridas:
— Olhando os números, vemos um quadro desalentador. Houve aumento de 40% dos tiroteios, redução de 30% das apreensões de fuzis. Muita gente tinha esperança, porque as Forças Armadas não estão envolvidas em corrupção, poderiam ter utilizado seu prestígio e sua presença para alterar a política de segurança e para dizer: vamos fazer uma política de segurança voltada para uma meta principal que é diminuir tiroteios, diminuir os confrontos de quadrilhas e principalmente diminuir as mortes provocadas pela intervenção da própria polícia.

O Globo, 16/08/2018
Para Sílvia Ramos, após seis meses, a intervenção está testando um modelo de segurança pública baseado em uma concepção militar, que pensa desafios de violência e criminalidade como problemas de guerra, a ser enfrentados por generais e batalhas. Para a pesquisadora, o modelo fomenta ainda mais a violência.
— Quando a polícia produz letalidade em suas ações, isso transmite uma mensagem, para a tropa para a sociedade e para os moradroes, de que excessos serão tolerados. Vamos fechar o ano de 2018 com um recorde de mais de 30 anos, nunca a polícia produziu tantas mortes.
Após o início da intervenção federal, de março a julho, foram registrados no estado 636 homicídios por intervenção policial, um aumento de 38% dos casos, em comparação com o mesmo período de 2017. O secretário de Segurança, general Richard Nunes, no entanto, negou que o aumento tenha sido causado por uma política de segurança pautada em confronto. Em entrevista, pela manhã, à Rádio CBN, Richard Nunes responsabilizou o comportamento dos criminosos.
Segundo Richard Nunes, a intervenção vem trabalhando com integração e produzindo informações para o combate eficaz da violência, atuando para derrubar os índices criminais:
— O nosso objetivo é baixar os indices de criminalidade como temos feito há quatro meses consecutivos. Baixamos todos os índices de criminalidade no que diz respeito aos crimes contra o patrimônio e até mesmo de latrocínio, que chegamos a um número em julho que não se repetia desde novembro de 2005 — afirmou Richard Nunes.
Ao analisar os primeiros seis meses da intervenção, o secretário lembrou que entre as metas que estão sendo realizadas está a reestruturação das polícias:
— Encontramos as polícias desestruturadas com salários atrasados, delegacias depauperadas e temos trabalhado para mudar isto. Recuperamos a capacidade de botar policial na rua com regime adicional de serviço, começamos a reavaliação médica para termos mais efetivo, estamos rearticulando as unidades de polícia pacificadora, nós conseguimos desentravar concursos que estavam aí desde 2014, que não se chamava nenhum policial, e nós conseguimos colocá-los de volta, chamá-los tanto na polícia civil quanto na militar.
Richard Nunes lembrou ainda que a polícia tem trabalhado junto às corregedorias e de forma integrada com o Ministério Público para a prisão de criminosos que têm um grau de sofisticação maior e criticou seus críticos.
_ Ou seja tanta coisa sendo feita que não está sendo observada que me causa surpresa. Eu acho que existe uma certa fixação de determinados observatórios especialistas que parecem que estão com a luneta travada, só conseguem enxergar determinados gráficos, mas tem muita coisa sendo feita e as pessoas de bem têm percebido isto.
Sobre os recursos de R$ 1.2 bilhão prometidos para a segurança, Richard Nunes lembrou que em razão da situação fiscal do estado, houve demora para a sua liberação:
O secretário também falou sobre o novo grupo de trabalho criado para implantar o novo sistema de inteligência do estado:
_ A nossa ideia é que a subsecretaria de inteligência seja o órgão central dos sistema de inteligência do estado, sendo capaz de integrar dados e isto demanda recursos tecnológicos mais avançados que nós também estamos adquirindo e temos que aperfeiçoar esta doutrina de intercambiamentos de dados das diversas organizações e também a capacidade de termos sensores e processadores adequados para o vasto volume de informações que são produzidas pela segurança pública num estado como o Rio de Janeiro. É isto que muda, melhorar a qualidade ainda mais e também a nossa expectativa é deixar até o final do ano um sistema de inteligência em condições muito mais eficaz de trabalho do que este que encontramos _ concluiu o general.