As cicatrizes da violência

Pelo menos 35 mudanças físicas e de comportamento marcam a cidade em 25 anos

Cantado em 1962 por Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal no “Barquinho”, clássico da bossa nova, aos poucos, o Rio foi deixando de ser simplesmente um lugar de paz e de dias tão azuis. A Cidade Maravilhosa se transformou no “Rio 40 graus” — o purgatório da beleza mas também do caos, retratado por Fernanda Abreu na década de 90 — e aderiu aos “proibidões” do funk, que cultuam o tráfico de drogas. A violência, que marcou o Rio sobretudo nos últimos 25 anos, deixou profundas cicatrizes físicas, na economia e no comportamento dos cariocas.

Durante duas semanas, O GLOBO ouviu mais de 60 pessoas, entre especialistas em segurança, representantes de setores da economia, vítimas e pais, que citaram 35 mudanças significativas impostas pela violência na cidade. A herança de uma cidade, que passou a ter que conviver com grades, câmeras em todos os cantos, vias desertas à noite, carros blindados e segurança privada nas ruas. E ainda com a expansão de shoppings e de condomínios fechados. Num Rio que foi berço do topless e da tanga, o banhista não pode levar para a praia nada de valor, com receio de virar vítima em potencial de assaltantes.

— A sociabilidade foi gravemente atingida pela violência. As pessoas passaram a ter medo umas das outras. O outro ser humano passou a ser visto como um atacante em potencial. Como conseqüência, as relações sociais ficam prejudicadas, as pessoas ficam mais trancadas em casa. Nessa cidade do medo, proliferam os condomínios e a segurança privada — comenta o antropólogo Gilberto Velho.

A cidade conta com um exército de 28 mil seguranças particulares regulares e 84 mil clandestinos, segundo o presidente do Sindicato dos Vigilantes do Rio, Fernando Bandeira. Um efetivo muito superior ao do início dos anos 80:

— Naquela época, havia 18 mil vigilantes regulares e não mais que 9 mil clandestinos. A segurança particular em ruas também se expandiu nos últimos anos — diz Bandeira.

 

Professora cria a bolsa do ladrão

Diante do crescimento da insegurança, novos hábitos foram criados. Saídas em grupos, dormir na casa de amigos para não ter que circular por ruas desertas e usar táxi em vez de carro particular à noite são alguns deles. O celular virou aliado de pais, para monitorar os trajetos dos jovens entre a casa, as festas e os bares.

— Minha mãe me manda telefonar sempre que chego num lugar e quando vou sair de lá — conta Daniel Carvalho, às vésperas dos 19 anos.

Vítima várias vezes de assaltantes, a professora aposentada Helena Moreira, de 62 anos, resolveu criar seus próprios meios de defesa. Ela tem até a bolsa do ladrão, que põe no banco do carona de seu carro. Nessa bolsa coloca celular quebrado, carteira com alguns trocados, guarda-chuva, batom, papéis e um tíquete do metrô. A bolsa com documentos, dinheiro e cartões fica escondida sob o banco.

— Saio preparada para o ladrão — contou ela, que tem moedas, no console, e notas, no pára-sol do carro, para entregar a pedintes que possam oferecer perigo.

Helena não deixa de sair a pé, mas, em lugares de pouco movimento, caminha pela rua, e não pela calçada. Outro conselho: não demonstrar medo, mesmo para mal-encarados.

— Um sorriso sempre abre um coração — ensina.

A insegurança também atingiu a indústria e o comércio. O presidente do Conselho de Varejo da Associação Comercial, Daniel Plá, diz que, nos últimos cinco anos, 12 mil (4%) dos 300 mil estabelecimentos comerciais do Rio fecharam por causa da violência.

Galpões desativados na Avenida Brasil, fábrica fechadas ao longo da Rua Visconde de Niterói (Mangueira) e os prédios da CCPL invadidos (Benfica) são algumas marcas da violência na indústria. Embora sem quantificar, o vice-presidente da Federação de Indústrias do Rio (Firjan), João Lagoeiro Barbará, revela que muitos empresários procuram a entidade para reclamar da insegurança.

Presidente da Associação Brasileira de Dirigentes do Mercado Imobiliário (Ademi), Márcio Fortes diz que o crime acabou por condenar determinadas áreas da cidade para o mercado imobiliário. O problema atinge principalmente o alto da Tijuca e bairros da Zona da Leopoldina.

— O mercado vem sofrendo com o crime há pelo menos 15 anos — lamenta Márcio.

Coordenador de Obras da construtora RJZ, Carlos André Lopes Borges conta que, a cada lançamento imobiliário, a segurança dos prédios e condomínios é aprimorada:

— De dez anos para cá, nenhum empreendimento é entregue sem grade. Há cinco anos, 100% dos lançamentos têm guaritas, algumas blindadas. Câmeras e sensores de presença são comuns. Mais recentemente, passamos a instalar controle de acesso por catracas e cartões magnéticos.

— É Big Brother total — acrescenta Rubem Vasconcellos, presidente da Patrimóvel. — Além disso, o clube passou a ser um item muito pedido para os novos condomínios de classe média alta. Com medo, ninguém quer sair de casa.

A maior novidade na segurança dos condomínios é o equipamento que permite abrir a porta de apartamentos através de impressões digitais e combinações numéricas. O equipamento será colocado no Riserva Uno, da RJZ, que será construído na Barra. Ainda voltado para a segurança, o Riserva terá identificador eletrônico de placas de carros dos moradores, e uma vaga onde parar significará pedido de socorro.

Mais do que sensação de insegurança, o cientista social e professor da Uerj Geraldo Tadeu Monteiro diz que os números demonstram o crescimento real da violência.

— Passamos por um período de redemocratização política, entre 82 e 88, mas a polícia ficou relegada a segundo plano. Não houve interesse em reformá-la. Nos anos 90, a globalização econômica levou à globalização da criminalidade. O Brasil entrou na rota do tráfico de drogas e de armas e da pirataria. Esses ingredientes levaram ao aumento da violência.

A cientista social Leonarda Musumeci, coordenadora de pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Cândido Mendes, lembra que, em 1994, o Rio viveu o ápice no que diz respeito a taxa de homicídios: 73,2 vítimas para cada cem mil habitantes. A taxa diminuiu, afirma, mas ainda permanece muito alta — 39,5 por cem mil em 2005. Já a taxa de roubos triplicou de 1985 para 2005 (de 535,2 para 1.240/cem mil).

O coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, remonta à nova Constituição (de 1988) para justificar o aumento da violência, especialmente nos grandes centros urbanos do país. Segundo ele, não foram feitas as reformas esperadas no Código Penal, no Código de Execução Penal, no Código de Processo Penal e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

— No caso específico do Rio, há muito teoria e pouca ação na área de segurança. A PM prende pouco e a Polícia Civil tem baixos índices de esclarecimento de crimes. Isso fomenta a impunidade — diz José Vicente.

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