Cientista política diz que apesar das críticas, ainda vê solução para projeto das UPPs

UPP na Rocinha - Gabriel de Paiva / O Globo

Pesquisa do CESec mostra que 82% dos moradores de áreas ocupadas querem outros serviços além da polícia

RIO – A cientista política Silvia Ramos, responsável pelo estudo sobre os aspectos positivos e negativos das UPPs feita pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESec), da Universidade Cândido Mendes, afirmou que ainda vê soluções para o projeto de Polícia Pacificadora. Após a apresentação da pesquisa, que falou com 2.479 pessoas que vivem em 37 das 38 regiões com UPPs no Rio – a Baixada Fluminense ficou de fora -, ela afirmou acreditar que é possível um novo recomeço:

– Se por um lado é muito ruim você ter a promessa não cumprida (dos projetos sociais e polícia de proximidade), por outro a gente já sabe como se faz. Quando a UPP estava funcionando, vimos baixar os índices de criminalidade e todo mundo na cidade passou a olhar os policiais com outros olhos. Dá para fazer de novo, dá pra recomeçar. Pelo menos nas favelas menores – disse a pesquisadora, que acredita, no entanto, que em favelas maiores é preciso adotar outros modelos de ocupação.

Para Silvia, o declínio do projeto das UPPs não está relacionado com a crise econômica do Estado do Rio, como muitos apontam. o problema, na verdade, seria a falta de vontade política de dar continuidade ao projeto, que previa o policiamento de proximidade:

– O policial comunitário no mundo todo é assim, não pode trocar tiros dentro da comunidade. Ele precisa ter uma retaguarda. É preciso ter um serviço de inteligência e a atuação de outros policiais que façam este combate ao tráfico.

Já a antropóloga Leonarda Musumeci, acredita que se o projeto original da UPP tivesse sido mantido, tudo seria diferente hoje:

– Se tivessem prosseguido com o projeto de UPP social e o projeto original da UPP policial, em que policiais seriam treinados para ter uma relação diferente com os moradores, tudo teria sido diferente.

A pesquisa mostra que a percepção dos impactos gerados pelo programa é baixa: a maioria dos entrevistados – numa variação percentual entre 55% e 68%, dependendo da comunidade e do perfil do morador (idade, escolaridade etc.) – afirmou que a presença da UPP “não faz diferença”. O levantamento com 56 perguntas, aplicadas nos domicílios dos entrevistados, foi realizado entre os dias 8 de agosto e 25 de outubro de 2016. Ou seja: incluiu os bons ventos dos Jogos Olímpicos, mas isso não foi suficiente para respaldar aspectos positivos de um projeto já em crise.

Durante quatro anos, o Rio assistiu a uma queda significativa nos números relacionados à segurança pública. A partir de 2012, no entanto, o cenário mudou e o recrudescimento da violência sinalizou o começo do fim das UPPs. Passados quase dez anos da concepção do programa, a constatação é de que ele não mudou a vida dos moradores das comunidades onde foi aplicado.

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